Nos vemos em 2100
A floresta que plantamos hoje precisa sobreviver a todos nós
Querido(a) Morfollower,
O clima de 2100 não vai ser como o de hoje. Então, o que significa plantar uma floresta agora?
Significa que as espécies que selecionamos hoje precisam sobreviver a condições que ainda não existem. E que as ferramentas que usamos para tomar essas decisões precisam estar à altura do desafio.
Há alguns meses, nossa equipe de pesquisa liderada por Emira Cherif publicou o FaBRestor, um framework de restauração baseado no futuro, na revista Restoration Ecology. Na semana passada, Rebecca Montemagni deu um passo além ao publicar uma ferramenta que ela construiu para projetar a adequação de espécies sob três cenários climáticos até 2100. O trabalho foi coberto pelo Um Só Planeta.
Essa precisão conecta diretamente com o que está acontecendo no mercado de carbono. Eu escrevi sobre isso recentemente: o capital está se concentrando em projetos capazes de demonstrar exatamente esse tipo de rigor.
Nos vemos em 2100 (ou talvez muito antes)!
Pascal Asselin, Cofundador e CEO da MORFO
🌡️ Projetando florestas para um clima que ainda não existe
A maioria dos projetos de restauração no Brasil ainda usa o que Rebecca Montemagni chama de “receita de bolo”. Mesma lista de espécies, mesma densidade, independente da localização ou das condições futuras. Uma espécie que prospera na Bahia hoje pode não sobreviver lá em 2070.
O framework FaBRestor da MORFO, publicado na Restoration Ecology, modela a adequação de espécies sob três cenários climáticos (Resiliente, Desafiador, Alto risco) em três horizontes temporais: 2040, 2070 e 2100. Rebecca transformou isso em um sistema que pontua cada espécie candidata com um índice de adequação (0,0 a 1,0) e projeta mudanças de distribuição pelo Brasil, local por local.
O framework já está orientando a seleção de espécies nos projetos de restauração da MORFO na Amazônia e na Mata Atlântica, onde a equipe o utiliza para adaptar as listas de plantio às condições futuras projetadas de cada área.
📖 Leia mais: Um Só Planeta
📊 As novas regras de seleção de projetos ARR
Os padrões de seleção de projetos ARR continuam se tornando mais rigorosos. Publicamos uma análise no nosso site detalhando o que a perspectiva do mercado de carbono da Abatable para 2026 significa para desenvolvedores e investidores.
Os números contam a história: o financiamento para NBS alcançou US$ 9 bilhões em 2025, contra US$ 4 bilhões apenas três anos antes. Os contratos a termo atingiram US$ 5,8 bilhões (+58% em relação ao ano anterior), sinal de que os compradores estão financiando o risco dos projetos mais cedo, não apenas comprando toneladas depois. E com 78 milhões de toneladas de demanda CORSIA esperadas em 2026, a conformidade regulatória está puxando o mercado voluntário para padrões mais altos. O mercado não está encolhendo - está se concentrando em menos projetos, mais rigorosos.
📖 Leia a análise completa: Novas regras de seleção de projetos ARR em 2026
🤝 Escalando a restauração com a Suzano: troca no campo
Em fevereiro, Pierre-Jean Quetant e Pedro Bevilaqua representaram a MORFO em dois dias de troca com os times de restauração da Suzano - escritório e campo, em projetos no Espírito Santo e na Bahia.
Os dois times discutiram o que funciona, o que não funciona e os gargalos operacionais da execução diária. Nenhuma conferência, nenhuma vitrine - sessões de trabalho e visitas de campo focadas no que realmente acontece quando se restaura florestas biodiversas em escala.
Uma conclusão se destacou: escalar a restauração florestal exige ser mais preciso, não apenas maior. Cada hectare responde de forma diferente. Solo, regime de chuvas, dinâmica das espécies, contexto local - nada é uniforme. E com a crescente pressão para entregar mais com menos capital, o desafio do setor é aprender a restaurar muito mais, sendo ao mesmo tempo muito mais preciso em cada área.
Tecnologia ajuda. Ciência orienta. Mas a troca aberta entre quem executa é o que acelera.
📚 Você deveria ler
Se você está plantando florestas que precisam sobreviver ao século:
A IA pode desbloquear financiamento para restauração da natureza? - WRI + DINOv3 da Meta conta árvores a partir de imagens de satélite. Conecta MRV baseado em IA à lacuna de financiamento para restauração.
ETH Zurich: Restaurar florestas exploradas é mais difícil do que se pensava - A recuperação pós-exploração madeireira não segue as curvas que os modelos assumem.
Diversidade funcional > número de espécies. O que aumenta a resistência dos ecossistemas não é o número de espécies, mas como elas funcionam juntas. A pergunta muda de “quantas?” para “quais funções estão presentes?”
Riqueza de espécies é o indicador nº 1 de resiliência florestal à seca - Publicado na semana passada na Nature Ecology & Evolution. 71% das florestas perderam resiliência após secas severas. A diferença? O número de espécies no solo. Florestas manejadas com menos espécies tiveram desempenho consistentemente pior.
Para quem acompanha o mercado de carbono:
Carbon Direct: Estado do VCM 2026 - CDR é 6% do VCM. Aposentadorias caíram 7% em 2025. A maioria das organizações com metas para 2030 ainda não começou a comprar.
VCM: onda de emissões no início de 2026 - Mercado se preparando para a primeira onda de demanda CORSIA.
Primeiros créditos ARR com selo ABACUS da Verra esperados em 2026. Baseado no VM0047, exige amostragem in-situ e compromissos com biodiversidade.
Do Brasil:
Sem biodiversidade, não há lucro - O maior relatório global sobre risco de biodiversidade mostra um risco sistêmico que a maioria das empresas ainda ignora.
Lacuna na infraestrutura de sementes do Brasil. Um livro gratuito da USP/Esalq mapeia os desafios da cadeia de suprimentos por trás das metas de restauração. “Falamos muito sobre metas. Pouco sobre a infraestrutura para atingi-las.” 59 páginas.
🐾 Companheiro do mês
Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) - avistado pela nossa equipe de campo na Amazônia. Uma fêmea prenha, descansando em uma de nossas áreas de restauração. Recentemente compartilhamos alguns desses encontros no nosso Instagram - vai lá dar uma olhada!
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